A Graúna é Mãe

domingo, 13 de maio de 2012


Hoje é o dia das mães. Eu sou mãe. Laralilá. Adoro comemorações. Sou festeira. O que eu não sou é uma boa mãe. Nem má. Sou, apenas. Acho importante desmistificar isso que ser mãe é padecer no paraíso. É nada. Tem um monte de coisas boas e um monte de coisas péssimas. E uma porção de coisas que normalmente são boas mas que naquela hora são péssimas e uma porção de coisas que são péssimas mas, em alguns momentos, ficam até boas.


Minha mãe é exatamente assim. Dava jeito em tudo (em certos dias em que preciso de colo, ela ainda dá). O jeito que minha mãe dava sempre parece melhor que o jeito que eu dou (em uma análise feita por mim mesma se eu fosse minha filha). Já pro Samuel, o jeito que eu dou parece ótimo. Ah, os pontos de vista!





O certo, certo mesmo, é que eu só sou a mãe que eu sou, isso significando o que quer que signifique, por causa do Almir. O pai. Sim, eu sei, as piadinhas... e é por isso também, aliás. Mas não só. O Almir fez possível uma maternidade mais tranquila e alegre. Ele estava sempre lá. Ele não me ajudou com as fraldas. Ele cuidava disso, trocava, lavava (sim, eram fraldas de pano), engomava, guardava, tudo. É tão diferente. Ele estava sempre lá. Pra desmamar o Samuel, era ele, Almir, que saía do apartamento com o filho nos braços e andava no pátio do prédio por quase uma hora, cantando baixinho, até o Samuel dormir. Ele estava sempre lá. Lembro da primeira vacina, eu tremia que nem vara verde, com dó de machucar/espetar o Samú, e o Almir entrou na sala com o Samuel, segurou durante o procedimento e acalentou depois. Ele estava sempre lá. Ele está sempre aqui. O Samuel, hoje, mora com ele. É ele quem cuida das coisinhas que a nossa sociedade, com seu apego aos papéis, credita às mulheres. Ele que olha se as unhas estão curtas, as tarefas feitas e a saúde em ordem. Sou muito grata por tê-lo como companheiro nos cuidados com o Samuel. Se eu sou a mãe que sou, com defeitos e acertos, é muito por sabê-lo aqui, perto, disponível e pronto pra tocar o barco.

Ser mãe não é a coisa mais importante que sou. Nem a menor delas. Sou eu, como tantas outras coisas que sou. A cada dia vou dando ao termo “mãe” mais a minha cara, o meu jeito, o meu ritmo. Por outro lado, o exercício da maternidade vai me constituindo e caracterizando. Não vem primeiro o ovo nem a galinha, mas um omelete de frango, acho.

O certo é que tem memórias que, quando o peito dói, servem de bússola e alento. Como o dia em que fui, a pé, da Universidade ao escritório, tomando banho de chuva, barriga de sete meses, enorme, a sensação de prazer e liberdade. Ou amamentar. Amamentar pode ser complicado, pra muita gente é. Pra mim foi alegria e prazer desde a primeira vez (tenho vídeo provando, mas acho que ele não seria aprovado pela censura, o outro seio fica lá, exposto e descarado). Ou colocar o filhote pra dormir na rede. Ai, poucas coisas são tão gostosas na minha memória como aquele peso no peito, o cheirinho cativante e a respiração pausada. As vezes que ele fica doente (eu sei, sou terrível) e procura a minha mão. Mesmo grande, 15 anos e mais de 1,90, quando ele tem febre e quer ficar aconchegado, meu coração dá saltos. Nenhuma dessas coisas é natural. Não vem no automático. São construções. O amor não é um dado. É um processo e o filho sempre, sempre, permanece um Outro, acho eu. Estranho, invasor, conquistador. Bárbaro, em todos os sentidos do termo. Quase sempre como a gíria. 

Comecei dizendo: hoje é dia das mães e eu sou mãe. Equívoco, claro. deveria ser: sou mãe do Samuel. Ser mãe não é uma categoria abstrata a qual nos enquadramos. É uma experiência concreta que vai sendo o que que vou sendo e vai me tornando quem sou. Não sou Mãe. Sou a mãe desse moço aí, meio menino, meio rapaz, quase homem. Outro. Admirável, interessante, divertido, enraivado, carinhoso, impertinente. Ele. Eu. Nós. 

Listas ou Post Umbigo

domingo, 29 de abril de 2012


Coisas que eu sei fazer bem...

Cafuné
Jogar buraco
Ouvir
Cachorro-quente
Lavar prato
Rodar
Comer
Esperar
Ficar bem
Paquerar a lua
Entrelaçar dedos, dias, sonhos
Preparar aula




 Comer, Comer...
Menina Juliana, aquela fina-flor, pensou um divertido desafio. Graúna não foge á luta – nem à lista – e já fui tratando de confessar as Comidinhas preferidas...

Se acabar, eu morro: Pensei e pensei. Primeiro: sal, mas depois lembrei que shoyu dá pra disfarçar bem. Creme de leite, mas sempre se pode colocar um pouco de requeijão. Manjericão ou cebola...mas tem outros temperinhos que satisafazem. Enfim, a iluminação: azeite! Não tem óleo, manteiga ou margarina que façam igual.


Só como com uma faca no pescoço: Brócolis. Só pra agradar os amigos esforçados e teimosos que insistem que a florzinha é de comer.

Não como nem com faca no pescoço: Chuchu. Quem teve a ideia de que chuchu era comestível enganou-se seriamente. Não tem gosto, tem uma textura horrível e é péssimo de descascar. Irgh!

Só meu/minha................ sabe fazer: Só meu irmão Lucas consegue fazer doces que me tiram do sério. Eu nem curto tanto petit gateau, por exemplo, mas ele faz com tanto amor, esmero e minúcia que fica difícil resistir.


Só eu não gosto: Acho que não tem. Eu não gosto de chuchu, mas acredito que grande parte da humanidade (a parte com paladar, por exemplo) também não gosta.

Companhia pra tevê: aquele sorvetinho em quadradinhos, eskibom. A gente nem sente que tá feliz, mas tá.

Levaria pra uma ilha deserta: um chef francês, um sushiman e um churrasqueiro, rá.

Faço como ninguém: comer.

Aprendi a amar: estar à mesa com pessoas queridas. Nem me importa muito o cardápio. Por isso não curto muito self-service, perde-se aquele intervalo de papo entre chegar, pedir e começar a comer.

Estrangeirice: não sei o nome de quase nada, mas curto provar tudo. E me amarro em tempero tailandês.

Minha trash food favorita: sanduiche com bacon. E se tiver que ser muito trash: sanduíche do Burger King...com bacon.

Pra aquecer no inverno: vinho. Opa. Pode ser maminha ao vinho.

Pra refrescar no verão: cerveja. camarão na cerveja.

Bons drink: é drink? É bom. Uia, brincadeiras à parte, se não for cerveja nem vinho, posso beber Mojito.

Legumezinho amigo: (mantenho e sustento a resposta da Juliana) Cenoura. Raladinha, no arroz, no sanduíche.

Frutinha camarada: manga! Não, não: banana. Virge: sapoti. Necas: ata. Pera: pêra. Ai: siriguela. Sinceramente? Não sei, adoro frutas.

Pra ser feliz: frutos do mar. Ou só o mar e qualquer comidinha por perto.



É de comover:

Uma criança mamando. A entrega absoluta, a mãozinha agarrando o dedo da mãe, os olhos semicerrados.

Dormir de mãos dadas. Já dizia Kundera que não o sexo, mas o sono compartilhado é que é o corpo de delito do amor. Se for assim, em confiante e despretensiosa união, então, já se sabe...

Chuva. A terra do meu sertão tão ávida de vida sugando gota a gota. Ou o cheiro de asfalto molhado. A grama molhada, as cores mais nítidas depois de lavado o tempo.

Aquele momento, nos filmes de luta, esporte ou guerra, em que vitórias ou derrotas não são mais importantes do que como acontecem.

A voz de Ella, ecoando onde, no peito, a angústia sonha ser esperança.

Estações. Antigas estações de trem, não importa quão modernas sejam, porque antigas são as dores de escolher partir ou ficar, antigas são as alegrias de chegar, antigos são os desencontros. Estações. Que podem ser cais ou aeroportos, desde que se vislumbre, como por um véu rasgado, os lenços acenados em preto e branco.

Cartas sem envelope. Fotografias antigas sem legenda ou anotação. Um recorte de vida, de dia, de desejos, sem dono ou destino. Passado.

A solidão absoluta de alguém sozinho na praça, sem livro, amigo ou espera. Simplesmente lá, olhos parados no nada. Ou à beira-mar. Os olhos repletos de sal. Dói.

Cheiro de cozinha. Fogão á lenha. Cebola refogada. Cuscuz.

Os bons inícios, que nos pegam a mão e não a soltam nem soltamos os livros... Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

Dia de Eva

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Eu sou a graúna, mas lendo a poesia do Fabrício Corsaletti bem que eu podia ter uma dia de Eva...


(peguei daqui)

Plano 
esperar Eva Green vir a São Paulo
por acaso conhecer Eva Green
convidar Eva Green para uma feijoada
beber com Eva Green cerveja e Salinas
ensinar Eva Green a sambar
no fim do dia ver com Eva Green o sol se pôr na praça do Pôr do Sol
se Eva Green for maconheira é melhor ter um baseado no bolso
falar de Rimbaud com Eva Green
mas Eva Green tem cara de quem prefere Baudelaire
traduzir Bandeira para Eva Green
Tom Jobim para Eva Green
Bocage para Eva Green
em hipótese alguma ler os poemas que escrevi sobre Eva Green
tomar um drinque no Terraço Itália com Eva Green
visitar Betito e Gô com Eva Green
não ir com Eva Green ao La Tartine
a não ser que Eva Green esteja muito nostálgica
ir ao cinema com Eva Green?
à praça Roosevelt com Eva Green?
sei que Eva Green não gosta de boate
apresentar a Eva Green uma boa padaria
amanhecer na Paulista com Eva Greeen
roubar um carro conversível
e descer para Santos com Eva Green
dormir num hotel barato mas limpinho com Eva Green
fazer amor com Eva Green
levantar tarde e comprar um biquíni
e protetor solar para Eva Green
comer mariscos com Eva Green e beber mais cerveja
em algum quiosque da beira da praia
quando Eva Green disser "vou dar um mergulho e já volto"
depressa avisar Eva Green que a água está poluída
consolar Eva Green por esse triste fato
prometer levar Eva Green a Picinguaba
onde o mar é verde como os olhos de Eva Green
agora sim mostrar para Eva Green os poemas que fiz para Eva Green
depois voltar ao hotel com Eva Green
massagear os pés de Eva Green
e deixar de Eva Green durma tranquila
então abrir a janela e tomar uma dose de uísque
olhando as estrelas e relembrando a infância
e sentir a maresia invadir o quarto e a cama
onde Eva Green dorme de lado com minha camiseta
e esfrega um pé no outro enquanto sonha 

Aquele Abraço

terça-feira, 20 de março de 2012


Eu me lembro do teu abraço. Não me cabia toda. Muitas coisas mal-ditas. Muitos silêncios. Um excesso de trajes. Eu lembro o teu abraço, meio de lado, apressado, atropelado em muitos ditos ansiosos. Eu lembro o teu abraço e de como eu queria ficar nele. Apenas isso: estar contigo. Te contar que a amizade é um amor. Mas você não acredita no amor. E todos os seus abraços são plataforma de estação na minha memória. Havia sempre a possiblidade da partida. Eu reviso letra a letra todos os abismos que construí. Porque, sim, eu carrego essa distância como uma culpa. Saber que a vida é maior que eu não me conforta. E eu demoro no nunca mais. Nunca mais não saber o que te responder. Nunca mais a conversa instigante. Nunca mais me saber no seu olho. Nunca mais querer acertar. Nunca mais rir tão fácil. Nunca mais comparar expressões. Nunca mais um novo velho filme. Um velho novo livro. Nunca mais Minnie. Nunca mais cangaceira. Nunca mais ir longe demais e voltar, assim, segurando firme outra mão. Aquela dor de saber que não nos lembraremos das mesmas coisas, talvez nem mesmo das que vivemos em conjunto.Eu sei que você tem essa dor. Uma dor que não é minha, feito um peso que não se pode dividir. Esse medo. Sei que o seu corpo se curva e sua testa se enruga nessa angústia tão mais material que a minha. E entender isso me dói tão mais. Por saber que meu abraço não te serve. Mas ele está aqui. Eu estou aqui. Querendo o de sempre: caber no seu peito.

Clichê

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012



Eu sou um clichê ambulante. O que for óbvio amar, eu amo. Assim, logo se deduz que entre as Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Estação Primeira de Mangueira é dona do meu coração. A Mangueira, com seus títulos e glórias me ensina, ano após ano, que Carnaval é antes de tudo, pra ser brincado. É espetáculo e competição, mas é principalmente uma festa. Isso é respeito à comunidade, ao samba, ao carnaval. Gosto do que a Mangueira me transmite e do que ela representa. Gosto de lembrar: Jamelão. Gosto de ouvir a avenida inteira cantando. Gosto da tradição misturada com audácia. Gosto que a escola não seja “certinha”. Gosto dos fantasmas que a Mangueira faz sambar cada vez que pisa no Sambódromo. Gosto que perca pontos em critérios “técnicos”. Gosto dos desfiles na contramão. Gosto dos enredos sobre personagens importantes, o desfile que tinha Chico Buarque como tema vai fazer sempre parte do meu imaginário. Gosto sempre, sempre, da minha Velha Guarda. 

Amar a Mangueira é fácil. Ela se entrega, inteira, ao desfrute. É escola sem receio de ser popular. Sem medo do óbvio. Das emoções extremas. É escola que samba chorando e cantando. É desfile sem vergonha de ser intenso. Amar a Mangueira é clichê, disseram. Escolha de quem vê de longe. Pode ser, não duvido. É a beleza intensa que cativa, que atravessa a fria distância e homogeneização da tv e esquenta o coração. Meu corpo vibra no ritmo do Surdo da Mangueira. A Mangueira é o samba que mora em mim. 

Essas Coisas Que Não Se Diz

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012



Eu não sabia você. Não sabia seu olho que me faz bonita. Não sabia esperar letras em azul. Não sabia espreitar árvores que abraçam o céu. Não sabia a melancolia das frases inacabadas. E tudo que eu não sabia era um vazio que eu me acostumei a chamar serenidade. Eu nem percebi quando as coisas foram pedindo você. Não eu, as coisas, digo pra me convencer.  Devagar, devagar, eu me digo, eu sei, tem uma dor latente tão imprevista que pode cortar o respirar. Escrevo longos textos que não publico. Construo paisagens, de palavra em palavra, um mosaico de caminhos que, todos eles, me levariam a você. Desfaço, letra a letra, sabendo que não é isso que esperas. Mas é que não sou uma pessoa boa. E isso significa que eu não sei silenciar em elegante compostura. Você já viu aquele filme: Lições para toda a vida? Há uma tocante conversa entre o tio e o sobrinho em que aquele diz a este que um homem deve poder acreditar em coisas que são ou não verdades (...) um homem deve acreditar na honra, na coragem e na justiça e um homem deve acreditar no amor, não porque sejam verdades, mas porque é importante que se acredite nelas. Eu não sou homem, tenho minha própria lista de crenças. Bem no topo, esta: não se deve abrir mão de um desejo, mesmo que este nunca se realize. Apenas o fato de existir já me faz outra pessoa. Mais intensa. Mais viva. Mais nítida. E completo dizendo que se faço drama é porque não sei fazer poesia e que nem um nem outro deviam lhe chegar como uma exigência ou convite, mas como uma tentativa de humanidade. Se me ferir a pele, eu sangro, mas é o sangue quem sempre esteve aqui, não o corte. Viver é muito perigoso, alertou Guimarães Rosa, mas é o que melhor faço, enquanto morro um pouco a cada dia.

Eu Não Sou Carioca*

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012



Eu não sou carioca. Sou sertaneja. Não tenho a pele dourada de Ipanema, não tenho a malícia da Lapa e nem sei sambar miudinho. Mas. Pois é. Desde que eu aprendi a dizer assim: eu! primeira pessoa, singular e peculiar, tem carioquices que me comovem e, de certa forma, me fizeram ser quem sou. O Flamengo, por exemplo. O calçadão de Copacabana. Os joelhos da Nara. Uma sensação de que se está no mundo a passeio. E, principalmente, escolas de samba. Pois é, sou dessas. Ano após ano - engolindo a transmissão da Globo e tudo – sento de frente à tv e assisto o desfile. Tenho Escola, pode rir. Mangueirense, choro sempre quando vejo a escola na avenida, e vivo dividida entre a vontade de desfilar e o temor de eu não consiga apreender toda a magia estando lá. Cantarolo, de vez em quando, “mangueira teu cenário é uma beleza que a natureza criou...” e passei a gostar ainda mais do Chico Buarque (se é que isso é fisicamente possível) por ele fazer show na quadra pra ajudar a Escola. Dizia Nelson Rodrigues: "Supõe-se que todas as alegrias se parecem. Mas a verdade é que a alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda, ou mais dilacerada, ou mais santa. Só sei que é diferente." Diferente, especial, pecular, eis a Mangueira. Mas não é única em sua beleza. Admiro a tradição da Portela, seu Paulinho e seu azul, a mística de uma escola que foi tão grande que sua enorme história até dificulta seu reerguer. E, claro, Império Serrano. Por causa dela. Linda, diva, inspirada e inspiradora Dona Ivone lara. Toda reverência a essa mulher que trazia o samba no pé, nos olhos, no riso, na serena beleza de cada letra. Diversa e pioneira, toca cavaquinho, trabalhou com Nise da Silveira e foi a primeira mulher a fazer parte da ala dos compositores. E com a suavidade pra escrever “o vento vadio embalando a flor”. Quando escuto D. Ivone Lara, é como se reencontrasse um pedacinho de mim que eu desconhecia. Deve ser o pedacinho carioca.


Aperta e segue o link ;-)

*Mas, algumas vezes, sou. Quando leio isso, sinto que dá. Ou isso

Em Madrugadas Assim

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


Acordo no fim da noite, respiração suspensa, todas as dores fazendo ciranda.

E se não doesse? Mas dói. Em madrugada assim, dói o colchão vazio, o coração vazio, o oco no ventre. Em madrugadas assim me aconchego no colo dos medos e deixo que me trancem o cabelo e sussurrem canções no ouvido. Eu choro em madrugadas assim. O sono me repudia e vejo o tempo brincar de não passar. Em madrugadas assim, perco todas as lembranças e só a névoa cinza habita o olho. Em madrugadas assim sinto falta das luzes constantes da minha cidade, das casas abertas, da música alta, dos corpos em festa. Das farmácias íntimas. Em madrugadas assim soletro futuro com letras de solidão e deixo o amargo fazer travo no sentir. Em madrugadas assim.
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