Hoje é o dia das mães. Eu sou mãe.
Laralilá. Adoro comemorações. Sou festeira. O que eu não sou é uma boa mãe. Nem
má. Sou, apenas. Acho importante desmistificar isso que ser mãe é padecer no
paraíso. É nada. Tem um monte de coisas boas e um monte de coisas péssimas. E
uma porção de coisas que normalmente são boas mas que naquela hora são péssimas
e uma porção de coisas que são péssimas mas, em alguns momentos, ficam até
boas.
Minha mãe é exatamente assim. Dava
jeito em tudo (em certos dias em que preciso de colo, ela ainda dá). O jeito
que minha mãe dava sempre parece melhor que o jeito que eu dou (em uma análise
feita por mim mesma se eu fosse minha filha). Já pro Samuel, o jeito que eu dou
parece ótimo. Ah, os pontos de vista!
O certo, certo
mesmo, é que eu só sou a mãe que eu sou, isso significando o que quer que
signifique, por causa do Almir. O pai. Sim, eu sei, as piadinhas... e é por
isso também, aliás. Mas não só. O Almir fez possível uma maternidade mais
tranquila e alegre. Ele estava sempre lá. Ele não me ajudou com as fraldas. Ele
cuidava disso, trocava, lavava (sim, eram fraldas de pano), engomava, guardava,
tudo. É tão diferente. Ele estava sempre lá. Pra desmamar o Samuel, era ele,
Almir, que saía do apartamento com o filho nos braços e andava no pátio do
prédio por quase uma hora, cantando baixinho, até o Samuel dormir. Ele estava
sempre lá. Lembro da primeira vacina, eu tremia que nem vara verde, com dó de
machucar/espetar o Samú, e o Almir entrou na sala com o Samuel, segurou durante
o procedimento e acalentou depois. Ele estava sempre lá. Ele está sempre aqui.
O Samuel, hoje, mora com ele. É ele quem cuida das coisinhas que a nossa
sociedade, com seu apego aos papéis, credita às mulheres. Ele que olha se as
unhas estão curtas, as tarefas feitas e a saúde em ordem. Sou muito grata
por tê-lo como companheiro nos cuidados com o Samuel. Se eu sou a mãe que sou,
com defeitos e acertos, é muito por sabê-lo aqui, perto, disponível e pronto
pra tocar o barco.
Ser mãe não é a
coisa mais importante que sou. Nem a menor delas. Sou eu, como tantas outras
coisas que sou. A cada dia vou dando ao termo “mãe” mais a minha cara, o meu
jeito, o meu ritmo. Por outro lado, o exercício da maternidade vai me
constituindo e caracterizando. Não vem primeiro o ovo nem a galinha, mas um
omelete de frango, acho.
O certo é que tem
memórias que, quando o peito dói, servem de bússola e alento. Como o dia em que
fui, a pé, da Universidade ao escritório, tomando banho de chuva, barriga de
sete meses, enorme, a sensação de prazer e liberdade. Ou amamentar. Amamentar
pode ser complicado, pra muita gente é. Pra mim foi alegria e prazer desde a
primeira vez (tenho vídeo provando, mas acho que ele não seria aprovado pela
censura, o outro seio fica lá, exposto e descarado). Ou colocar o filhote pra
dormir na rede. Ai, poucas coisas são tão gostosas na minha memória como aquele
peso no peito, o cheirinho cativante e a respiração pausada. As vezes que ele fica
doente (eu sei, sou terrível) e procura a minha mão. Mesmo grande, 15 anos e
mais de 1,90, quando ele tem febre e quer ficar aconchegado, meu coração dá
saltos. Nenhuma dessas coisas é natural. Não vem no automático. São
construções. O amor não é um dado. É um processo e o filho sempre,
sempre, permanece um Outro, acho eu. Estranho, invasor, conquistador.
Bárbaro, em todos os sentidos do termo. Quase sempre como a gíria.
Comecei dizendo:
hoje é dia das mães e eu sou mãe. Equívoco, claro. deveria ser: sou mãe do
Samuel. Ser mãe não é uma categoria abstrata a qual nos enquadramos. É uma
experiência concreta que vai sendo o que que vou sendo e vai me tornando quem
sou. Não sou Mãe. Sou a mãe desse moço aí, meio menino, meio rapaz, quase
homem. Outro. Admirável, interessante, divertido, enraivado, carinhoso,
impertinente. Ele. Eu. Nós.








