É Festa!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Essa Graúna sente. Sente amor, admiração, saudade. Sente o tempo se fazer agoras e sente o agora se estender em quandos. Hoje, essa Graúna sente cheiro de festa no ar. De festas, para melhor dizer. Festas de aniversário, uma das minhas preferidas. Gosto de festejar a vida dos que gosto, é isso. E me dedico a cantar parabéns desafinadamente e fora de ritmo, batendo estrondosas e festivas palmas, gosto de escolher mimos pra presentear (mas nem sempre minha carteira me deixa, essa estraga-prazeres), gosto de fazer votos de vida feliz, feliz, feliz; gosto de parabenizar pelo bom ou mau gênio, pelas escolhas (certas ou erradas, que importa, o bom é poder escolher), pelas características que admiro ou compartilho (e às vezes, até são as mesmas, laralilá); gosto de comemorar, gosto de festinhas, festejos, festonas...Gosto, gosto, gosto.

Mas nem sempre gosto e geografia se afinam. Hoje tem festa do outro lado do mar. É um dos aniversários da minha mãe. E eu que já telefonei na quase madrugada dela pra fizer meu oba-oba esfuziante, fico aqui com saudades de deitar no seu colo e falar bobagem e rir alto. É aniversário da minha mãe e fico desejando que a vida seja gentil com ela, mais do que já foi, tanto quanto ela é comigo e com meus amigos, fico torcendo pra vida cuidar dela um pouco mais, como ela sempre cuidou de mim e das pessoas que gosto.

Hoje tem (mais) festa do outro lado do mar. É aniversário da Hertenha, amiga que quando soletro seu nome, digo assim: s-e-m-p-r-e. Hertenha é movimento. Energia e beleza feito corpo que é arte, que é abraço, que é expressão. Amiga que se preocupa. Amiga que ri junto. Amiga que cuida. Amiga que arranca a casca da ferida pra não supurar. Amiga que não tem pejo de ser. É aniversário da Hertenha e eu fico aqui desejando que a Sofia um dia saiba o amor por ela como eu sei o meu amor pela minha mãe. E que seja em risos, em colo, em abraços.

Hoje tem (mais e mais) festa do outro lado do mar. É aniversário da Deborah, que chegou depois que eu pensei que não chegaria mais ninguém. A amizade da Deborah é como um passeio em uma cidade que se ama. Há aprendizagens, encantos e muita pausa pra cerveja. A gente esquece o medo de se perder porque, veja bem, todo lugar é bom. É aniversário da Deborah e eu fico aqui desejando que ela se saiba, um pouquinho, como eu a sei, em coragens e belezas. Que a vida lhe seja em amor, esse amor que falta, que aponta, que permite.

Eu não desejei felicidade a elas, porque elas são daquelas, das que fazem acontecer. E eu fico aqui, querendo estar ali. No abraço. Na festa.

*****

Mas tem um lugar em mim que não se fez riso nem folguedos, um lugarzinho meio órfão do Vanzolini. Eu sei que bla-bla-blá whiskas sachê, vida bem vivida. mas saber não acaba com esse oco que faz eco das canções que não serão. Como se diz no twitter: "tem morrido muita gente que nunca tinha morrido antes". E uma porção dessas gentes eu não me incomodava de receber numa festinha cá em casa, com violão, cantoria, cachaça e papo, especialmente papo. É fato: os bons morrem cedo (não importa se 89, 99 ou 109, se é bom, é cedo).

É provável que ele tenha ido sem pena. Fico eu, penando. Ficamos. 



Aquilo que se é

sábado, 20 de abril de 2013


Um dia acordei e não era uma mosca. Nem uma barata. Eu não era um pombo, ganso nem nada parecido. Eu acordei e eu era eu. Braços ocos de abraços, pernas inseguras e, o mais esquisito, sem saber onde pôr a cara.

Isso de querer ser aquilo que se é, é uma bela duma treta.

Um único desejo: borrar memórias.

Eu escrevo na areia e a desconfiança, em ondas, apaga o riso.

Faço calendários. Conto o tempo em desassossegos.

Poderia ser, teu peito, porto?




Rapidinhas além-mar

terça-feira, 27 de novembro de 2012


- meu professor passa férias nas Filipinas.

- aprendizado: rés-do-chão é o mesmo que térreo; perder a face é passar vergonha, perder o respeito, ficar embaraçado com algum erro.

- finalmente terei minha entrevista no SEF, anota aí: 03 de dezembro. De madrugada: 08hs.

- a beleza do outono: o chão colorido de folhas: amarelas, avermelhadas, rubras, verdes, laranjas. O chão feito tapete de retalhos.

- ainda não me acostumei com as bifanas, os salgados frios, o pão de casca tão dura que não dá pra morder na frente de um eventual paquera sem um mico antológico. Mas não me pergunte como eu vou viver sem o azeite, as castanhas portuguesas e a mistura porco com marisco.

- Motel: não tem. Ou é tão escondidinho que é o mesmo que não ter.

- Status: reconstruindo todo o projeto de pesquisa.  

- Momento "ah, como eu preciso de você", um beijo impressora nova.


Eu Não Acredito No Amor

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Eu não acredito n’O Amor. Não acredito n’O Amor maternal, filial, fraternal. Não acredito n’O Amor romântico, erótico, whatever. Não acredito que O Amor se aposse de alguém. Invada. Domine. Não acredito n’O Amor como entidade, abstração, à parte de alguém, do sujeito. 

Penso que o viver é material. Que o sentir é material. Que os amores – sempre no plural – são construídos, aprendidos. E que no processo de construção do amar, construímo-nos sujeitos. E ao nos fazermos únicos, fazemos única nossa forma de sentir. Penso que o amar é na concretude de cada existência. Que amamos não apesar de, mas em relação a: ao lugar, à época, à classe, ao gênero do qual fazemos parte e/ou nos identificamos, pra citar só o básico.

Penso que o sujeito A ama o sujeito B de uma determinada forma em uma determinada época, em um lugar específico. Mudando-se o sujeito, o lugar, o período, muda-se o amor. Ou ele nem acontece. Por exemplo: a sujeita L pode amar hoje um sujeito C, mas talvez não o amasse se o encontrasse dois anos atrás. Ela e ele eram outros. E mais, a sujeita L pode ainda amar o mesmo sujeito C daqui a dois anos, mas se o encontrasse só daqui a dois anos, pode ser que nunca viesse a se interessar por ele.

Mas divago. O sentido disso é que penso o amor como um sentir histórico em um dado contexto sócio-cultural. Fico com um pezinho atrás quando leio críticas aos laços sociais contemporâneos (e eu tenho várias) que se baseiam na idéia de um certo X errado nas relações. Como se houvesse um jeito “bom” de amar e estivéssemos nos equivocando. Como se houvesse um “deve ser” no amor e não um “o que foi”. Eu sou a favor da arqueologia das emoções (lato sensu). De aprender com o que fomos e sentimos e não prescrever o que devemos ser ou sentir, a não ser no dimensionamento de um espaço ético para as relações humanas. 

O resto é com a sujeita L, o sujeito C, o desejo e tanta vida por viver. 

Balanço

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sou mala. Caminho. Movimento. Sou viagem. Cigana. Passo e estrada. Sou encontros. Esquinas. Entroncamentos. Sou escolhas. Leste ou Oeste. Direita e esquerda. Asfalto. Barro. Areia. Sou o risco. Linha. Do horizonte. Da agenda. De chegada. Percurso. Sou janela. Sou cenário. E sou o olho. 

Ou penso que, cadeira de balanço, varanda da casinha enraizada no sempre. 



Então é Natal

segunda-feira, 5 de novembro de 2012


As lojas e casas aqui já começam, ainda de forma tímida, a apresentar suas luzinhas e guirlandas. Natal, natal, pensei e logo vi o texto da Fal que, como quase todo mundo que conheço, não curte o natal. Gosto de natal. Gosto muito de natal. O período natalino une duas coisas que me agradam: festas e as ditas emoções baratas. 

Festas, celebrações, furdunço, foi muita gente junta com riso fácil e afeto e eu já estou curtindo. Natal, na minha memória afetiva e na vida corrente, é exatamente isso. Tenho uma família grande, amorosa e presente: 13 tios só por parte de pai. Mais uns tantos do lado materno. Todos por perto no natal, com maridos, filhos, enteados, agregados...gente, gente, gente. E bebida. E comida. A comida do natal é um prazer à parte. Nem sempre seguindo as convenções. Tenho lembrança das pessoas chegando com várias travessas, comida colorida e nada combinando com nada, tudo gostoso. Uma fartura que não se materializa em excesso nem desperdício, fartura de partilha, de mistura, de troca. Depois, eu  na cozinha. Ano após ano faço, do querer bem, tempero. Gosto de ficar ao pé do forno, preparando sabores pra alegrar e nutrir quem eu amo. 

Outro momento festivo: as trocas de presentes, especialmente se for em amigo secreto. Já faz mais de 20 anos - bem mais - que na minha família não temos a prática de cada um comprar coisas pra todo mundo. Fazemos um amigo secreto íntimo: pai, mãe, irmãos e maridos/filhos já mais recentemente, e um troca-troca improvisado com quem chega pra festejar. Muitas vezes, ao fim do troca-troca, entrego meu presente pra alguma outra pessoa que o desejou durante a brincadeira. Não faço isso porque sou boazinha, mas porque vi meu pai fazer vezes e vezes e me dá prazer. As coisas não importam, a emoção sim. 

Mas eu disse: festa e emoções baratas. O natal é brega, não é? todo aquele vermelho e verde e luzes que piscam e enfeites que em nada se parecem com nosso cotidiano ou, pior (só que no sentido de melhor, melhor, pra mim) adaptados à cultura local. Amo os presépios "anordestinados". Nada de sofisticação e elegância, o natal é o choro fácil, os votos ligeiros, o riso alto. Um intelectual torce o nariz. Eu gosto. Gosto das emoções fáceis. Das músicas exageradas. Da sensação de perda, recomeço, reencontro. Gosto da esperança. Dos filmes com mensagens óbvias, com anseios de amor, com a paz de propagandas. Gosto de ouvir Judy Garland e acredito que Agora Seremos Felizes. Gosto do Milagre na Rua 34, mesmo que na minha cidade todas as ruas tenham nome por extenso. E gosto, principalmente, de ver James Stewart a correr na rua, feliz por estar vivo. Sinto-me assim: grata.

Pode-se argumentar que não é preciso o natal pra sentir-se assim e eu não vou discordar. Assino. Procuro lembrar o prazer de estar viva sempre. Mas isso não me convence que desculpas pra isso não sejam boas. Toda desculpa é boa pra lembrar de ser feliz, de amar, de encontrar, de abrir-se pro outro. Também pode-se falar - com mais seriedade - do monopólio festivo das religiões cristãs e da discriminação religiosa, do preconceito, da invisibilidade. Aí não tenho refutações e anseio por um tempo de mais respeito mútuo. E, claro, não se há de esquecer, entre as pedras pra jogar no natal-geni, o consumismo exacerbado, embora eu mesma nunca tenha sido do time de enforcar o mensageiro pela má notícia. 

O certo é que, racionalmente, até posso ser convencida de que o natal não isso nem aquilo. Mas, ah, as festas e as emoções baratas...



Obrigada, Bibi

domingo, 4 de novembro de 2012


Se algum dia eu me defrontar com a morte não como evento mas como encarnação, com algum E.T. mal-humorado, com um deus qualquer ou com meu superego e um deles me perguntar o que valida a espécie apesar dos horrores enormes e das baixezas diárias, na minha lista estaria a Bibi Ferreira. Bibi Ferreira me comove. Vi-a, ao vivo, duas vezes, a primeira em Fortaleza, já há uns anos, com um espetáculo chamado “Bibi canta e conta Piaf” e a segunda vez, ontem a noite.

O show, envolvente e belo por si só, recebeu o plus de acontecer no Teatro Nacional D. Maria II (espiem informações aqui e imagens aqui e aqui). Começa com o grupo de instrumentistas tocando Malandragem – e, olha, é muito pertinente, a Bibi tem uma cara moleca mesmo. E aí, antes dela cantar qualquer coisa - só por chegar ao microfone, no seu vestido azul decotado que, aposto, não tinha cheiro de guardado apesar do Chico Buarque – foi aplaudida de pé por uns bons minutos. Assim, só por ser ela, incrível, talentosa, corajosa, criativa. Foi lindo. Fiquei emocionada. Como me emocionou sua voz forte, seus braços enrugados dignamente sacudidos pra lá e pra cá, suas piadas sobre a idade. O espetáculo é todo dialogado, ora com o público, ora com o maestro que lhe dá as deixas para apresentar as canções. O maestro é, obviamente, muito melhor músico que cantor. É até engraçado ver a diferença entre a espontaneidade dela e o ensaio dele nas conversas. Um intervalo: o maestro não deve ter 40 anos. Fiquei pensando como deve ser emocionante pra ele, como deve ser um presente e um aprendizado trabalhar com uma pessoa como a Bibi Ferreira. Fim do Intervalo, voltemos ao show. 

Depois de alguns agradecimentos iniciais, apresentação dos músicos e comentários gerais, ela começa com músicas da década de 30, dos musicais de Hollywood como By a waterfall e Oh, you nasty man. Aí eu penso: a voz dela foi feitinha pra isso. Tola, tola, imensamente tola eu: vou voltar a pensar exatamente isso nas diversas interpretações que se seguem. Enfim. Depois do momento Hollywood veio a Broadway e os musicais que Bibi montou no Brasil:

- The Impossible Dream/Man of La Mancha, do musical Man of La Mancha (O Homem de la Mancha)
- Hello, Dolly!, do musical Hello, Dolly!
- I Could Have Danced All Night, do musical My Fair Lady

Depois, com o mesmo vigor, cantou as canções dos musicais que ainda gostaria de fazer, uma piadinha que provoca risos na plateia ao que ela responde: “a esperança é a última que morre” e uma piscadinha marota. Evidentemente chorei quando, entre America e Memory, ela cantou My Favorite Things. E não foi a última vez que chorei, claro.

A seguir, música brasileira, daquelas que trava garganta, Haroldo Barbosa, Hermano Silva, Dorival Caymmi, Vinícius de Morais, Tom Jobim. Uma viagem à beleza. Depois dois tangos e historinhas sobre a mãe argentina e parte uruguaia da família. Na continuidade, a parte hilariante, juro que gargalhei tão alto que fez eco no teatro: óperas com letras de músicas brasileiras. Não dá pra ter nem ideia sem ouvir, recomendo demais. Foi assim: Brindisi (ária da ópera La Traviata, de Verdi) com letra de Palpite Infeliz (Noel Rosa), O Barbeiro de Sevillha (e outras árias da ópera de Rossini) com versos de O Teu Cabelo Não Nega (Lamartine Babo), Nega do Cabelo Duro (Rubens Soares e David Nasser), Nega Maluca (Evaldo Ruy e Fernando Lobo) e Carinhoso (João de Barro e Pixinguinha).

Mais música brasileira: Minha Palhoça (um gostoso samba de breque), Conversa de Botequim, Ponteio e a dupla buarquiana Gota D’água e Basta um Dia. Não só as canções, mas um trecho falado da peça. Uma delícia. Como continua delicioso o momento Piaf (que só não é mais gostoso porque me faz perceber que se aproxima o fim do espetáculo). Depois o bis, com um fado emocionado.

O espetáculo todo foi intercalado por momentos de intensas palmas, pessoas de pé, gente emocionada, uma espécie de consciência do privilégio de se estar ali, frente a uma talentosa pessoa de 90 anos. 90 anos de criatividade, brilho, humor. Há, sim, há a lentidão dos movimentos, uma pausa para a água, um leve tremor, os braços enrugados. Não foi bonito apesar disso. Nem foi bonito por isso. Ela, inteira, com sua voz, com sua vida, com suas memórias, isso faz o espetáculo maravilhoso e eu, feliz de lá ter estado.

Saí com a cabeça cheia de caraminholas. De como ela estava tão bonita, velha (as luzes muito fortes não me permitiam ver os estragos das plásticas no rosto, então estou me referindo ao corpo, aos movimentos, à riqueza da voz). De como a velhice é bela e como somos tolos, como sociedade, por não a valorizarmos. Fiquei pensando na finitude, também. De como cada espetáculo da Bibi, agora, é regiamente aplaudido, como se pudesse - e pode - ser o último e não louvar seu imenso talento fosse desemerecê-lo. É preciso, na última vez, aplaudir por todas as vezes anteriores. E como não se sabe qual é, que se continue em ovação. Fiquei pensando em todas essas pessoas incríveis que redimem minha inaptidão para tudo e qualquer coisa, porque eu as amo, aprecio, admiro e me sinto parte por poder aplaudi-las. Saí grata, imensamente grata, por estar aqui, agora, por poder ver, ouvir, amar. Grata.

Lado B

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não quero ou não posso ou não sei. Porque não há palavras para elas. Porque são tão pequenas e a vida tão rápida. Porque doem. Porque são de uma outra eu que já se foi, ficou na memória e no abraço de alguém. Porque ainda não chegaram. Há uma porção de sombras em mim. Câmaras escuras onde você pode se perder. Corredores cinzentos, pátios semidestruídos, cômodos abandonados. E você anda, firme, pelos espaços meus, tão seguro com seu pequeno lampião, como se o querer pudesse me fazer solar. Você é tão em agoras que sinto uma ternura doce e deito sua cabeça em meu colo e deixo os dedos espalharem-se na sua pele. Eu faço de conta que pode dar certo. Faço uma prece, ou quase, eu não sei rezar. Não sei dançar tão devagar, canta marina e eu com ela. Não sei dizer. Há uma porção de coisas que nunca te direi. 
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