Eu não me lembro quando comecei a ler a Caminhante Diurno, mas não esqueço de lê-la, agora. Com sua escrita ora delicada, ora ácida, ela consegue manter-se entre os que tratam seus textos e personagens com ternura e generosidade sem perder a perspectiva crítica. A Caminhante já fez e aconteceu, até já estudou chinês (duvida, conheça-a aqui). Tem, publicados, dois livros: Cegueira e normatividade social e Prazo Expirado, este com textos do blog. Hoje em dia, além do seu blog sobre nada (ela que assim o definiu), também anda Caminhando por Fora, onde trata de livros, filmes, enfim, de produções culturais. E eu já contei que, entre tantos textos intensos, eu sempre releio este que me diz tanto sobre ser mulher e me sentir poderosa?
É uma honra e um prazer ler a Caminhante aqui, nas asas da Graúna.
Ana Terra, by Caminhante Diurno
Quando a Borboletas me convidou para escrever sobre uma grande mulher, quis escrever sobre uma dessas grandes e comuns mulheres que todas nós conhecemos. Mas qualquer mulher forte me leva a pensar na Ana Terra, da trilogia O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Ela, para mim, é um verdadeiro arquétipo: uma mulher tão forte quanto comum.
Os Terra tinham uma pequena propriedade e viviam isolados do mundo. Um dia surge um índio machucado, e com eles chegam histórias, outros costumes e um pouco de música naquela austera família. Ana se apaixona e o romance é descoberto quando ela conta para a mãe que está grávida. Para limpar a honra dela, o índio é assassinado pelos Terra. A família segue isolada e trabalhando duro. Quando surge a perspectiva de melhorar um pouco de vida, as terras são invadidas por aventureiros. Ana protege seu filho e se coloca na linha de fogo. A família morre, Ana é violentada, tudo o que a família lutou anos para construir acaba em apenas um dia. Uma situação tão dolorosa que é difícil até na hora de ler. Depois de enterrar seus mortos, uma caravana passa pela propriedade. Ana pede para ir com eles, começar tudo do zero:
Ana sentia-se animada, com vontade de viver. Sabia que por piores que fôssem as coisas que estavam por vir, não podiam ser tão horríveis como as que já tinha sofrido. Este pensamento dava-lhe grande coragem. E ali deitada no chão a olhar as estrelas, ela sentia agora tomada por uma resignação que chegava quase a ser indiferença. Tinha dentro de si uma espécie de vazio: sabia que nunca mais teria vontade de rir nem de chorar. Queria viver. Isso queria, e em grande parte por causa de Pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido a ninguém para vir ao mundo. Mas queria viver também de raiva, de birra. A sorte andava sempre virada contra ela. Pois Ana agora estava decidida a contrariar o destino. Ficava louca de pesar no dia em que deixara Sorocaba para vir morar no Continente. Vezes sem conta tinha chorado de tristeza e de saudades naqueles cafundós. Vivia com o mêdo no coração, sem nenhuma esperança de dias melhores, sem a menor alegria, trabalhando como uma negra, e passando frio e desconforto. Tudo isso por quê? Porque era a sua sina. Mas uma pessoa pode lutar contra a sorte que tem. Pode e deve. E agora ela tinha enterrado o pai e o irmão e estava, sem casa, sem amigos, sem ilusões, sem nada, mas teimando em viver. Sim, era pura teimosia. Chamava-se Ana Terra. Tinha herdado do pai o gênio de mula.
Como explicar mulheres tão fortes onde nem sobreviver sem os homens elas deveriam? Exemplos assim existem em todas as famílias. Atos de heroísmo cotidianos, mas nem por isso pequenos; esforços essenciais que nunca entrarão para a história. Porque à mulher cabe o papel de ser heroína para poucos, para os seus, para o sujo, o baixo, o pesado, o escuro (quem leu A dominação masculina de Bourdieu sabe do que estou falando). À mulher cabe o papel da contenção diante do masculino e à desonra quando não resiste àquilo que masculinidade propõe. Cabe a ela silenciar diante da injustiça e da incompreensão e, ao mesmo tempo, ser brava como ninguém para defender seus filhos. Principalmente, à mulher sempre esteve reservado o papel da reconstrução. A mulher limpa, junta os cacos, veste os mortos, faz a comida. Ela é o lado prático da desgraça.
Já não somos assim, tão conformadas quanto Ana Terra. E, infelizmente, talvez já não sejamos tão fortes. Entre a feminilidade que queremos superar e a que queremos ter, existe uma estrada desconhecida a percorrer. Tal como aquela caravana.

4 Revelações:
venho de uma familia de mulheres fortes, minha avó enfrentou cangaceiros, minha mãe é um exemplo maior ( vou contar sua historia em meu blog...) perdeu um filho, perdeu o marido, estudou, se formou, escreveu um livro, reeditou-o com mais de 70anos, etc, etc,
e creio que herdei esse espirito...
Hoje, com a mudança na estrutura familiar inicia-se um processo de reconhecimento dessa força. Reconhecimento. Mas não, valorização.
Isso, ainda é uma luta árdua. Até porque não é apenas a visão do homem que é disfocada, mas também a de nós; mulheres.
Bjus!!!
K.
Caminhante, gosto de pensar que somos capazes de dar conta da estrada desconhecida. Porque, né, o mundo precisa que a gente encare.
Beijo
Rita
acredito na força das mulheres, lembro de minha vop criando, viuva, 8 filhos, dentre eles minha mae, q me passou o "certo e errado", herança de uma mulher forte.
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