Jornalista, escritora, comunista, ops, estou escrevendo é sobre a Niara e não sobre a Pagu, mas, olhaí, um monte de coincidências. Niara escreve no Pimenta com Limão. E no Pipoca Comentada. E no SHE-NSN. Haja fôlego porque, puxa, ainda tem a vida pra levar, o Calvin pra curtir, o cinema pra amar e um mundo de equívocos machistas pra mudar, porque, claro, é feminista (lá da lista do Blogueiras Feministas que tanta alegria me dá). Niara nostraz uma mulher tão intensa quanto ela mesma e eu recebo, ambas, com alegria. Se quer entender melhor como é quem arde como pimenta, é só escutar isso aqui.
Inquieta e Intensamente Pagu
“Esse crime, o crime sagrado de ser divergente,
nós o cometeremos sempre.”
Jornalista, escritora, comunista, musa dos modernistas (e não da Semana de Arte Moderna – em 1922 ela tinha apenas 12 anos), ousada, inquieta e profundamente incomodada com as injustiças do mundo e diretora de teatro. Certamente estou esquecendo alguma coisa. Pagu foi milhões de mulheres em uma só. Teve seus momentos de sexy apple mais à flor da pele, quis ser estrela de cinema em Hollywood, encontrou Prestes e Jorge Luís Borges, foi do Partido Comunista, trabalhou como operária, foi casada duas vezes, mãe duas vezes, viajou muito, rompeu com o Partido Comunista, pedalou com o último imperador japonês, esteve na União Soviética, foi ativista também no PC Francês, encontrou Freud em um navio, encontrou Breton e a vanguarda francesa, foi ferida em manisfestações mundo afora – de Santos à Paris, foi inimiga pública de Getúlio Vargas, encontrou Sartre, sobreviveu a 23 prisões, tentou o suicídio duas vezes e morreu de câncer aos 52 anos.
Faltou fôlego para ler? Imagine para viver!
A melhor apresentação de Patrícia Galvão é ela mesma o que fez de sua vida. E ela se fez Pagu. Acompanhem:
1910 - 9 de junho. Nasce Patrícia Rehder Galvão, filha de Thiers Galvão de França e Adélia Rehder Galvão, em São João da Boa Vista (SP). O registro de nascimento é de 14 de junho, data às vezes erroneamente citada como a do nascimento.
1925 - Primeiras colaborações no Brás Jornal; primeiro pseudônimo: Patsy. Frequenta o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde é aluna de Mário de Andrade e de Fernando Mendes de Almeida.
1927 - Perde o Concurso Fotogênico de Beleza Feminina e Varonil, da Fox. Quem ganha é Lia Torá, o vencedor masculino é Olympio Guilherme, que parte para Hollywood. Antes, tivera um namoro com Patrícia.
1928 - Vai às reuniões do casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Raul Bopp é quem a teria apresentado aos dois. Bopp reivindica a criação do apelido Pagu (dado por achar que seu nome fosse Patrícia Goulart). Recebe o diploma de professora na Escola Normal de São Paulo.
1929 - Primeira colaboração na Revista da Antropofagia (um desenho, no número 2 da 2a “dentição”). No número 8, publica novo desenho, assinado Pagu. Produz o Álbum de Pagu – Nascimento Vida Paixão e Morte, composto de textos e desenhos humorísticos. Começa o diário (com Oswald de Andrade), Romance da época anarquista ou Livro das horas de Pagu que são minhas. A data é 24 de maio, que Augusto de Campos afirma “poder ser o dia do início do romance entre os dois”. Em 5 de junho, declama poemas modernistas numa festa beneficente, vestida por Tarsila. Casa-se a 28 de setembro com o pintor Waldemar Belisário; o casamento é pró-forma. Após a cerimônia civil, Oswald recebe a noiva de Belisário, no alto da serra de Santos e, enquanto o pintor volta a São Paulo, Oswald e seu filho Nonê se juntam a Patrícia, rumo à praia. O casamento com Belisário seria anulado em fevereiro de 1930. Inicia o Caderno de Croquis, com paisagens e cenários de cidades brasileiras.
1930 - Oswald de Andrade e Patrícia Galvão fazem um casamento peculiar, no cemitério, diante do jazigo da família dele, em São Paulo, a 5 de janeiro. Nasce Rudá de Andrade, filho de Oswald e Patrícia, a 25 de setembro. Viaja em dezembro para Buenos Aires. Ali não consegue se encontrar com Luís Carlos Prestes, a quem conheceria depois, em Montevidéu, mas trava contatos com Jorge Luís Borges, Eduardo Mallea, Victoria Ocampo e Norah Borges.
1931 - Entra no Partido Comunista Brasileiro. Publica a seção A Mulher do Povo no jornal O Homem do Povo, que editou juntamente com Oswald. O jornal seria proibido pela polícia após oito números polêmicos que valeram o empastelamento do seu escritório por estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. No jornal também cria e desenha uma história em quadrinhos. É presa, a 23 de agosto, em Santos (SP), ao participar de um comício em homenagem a Sacco e Vanzetti, quando um estivador negro morre em seus braços, fuzilado pela polícia getulista. É levada para o cárcere na Praça dos Andradas. A cadeia é hoje um centro cultural que leva o seu nome.
1932 - Vai morar numa vila operária, no Rio de Janeiro, cidade em que trabalha como proletária em vários ofícios, entre os quais lanterninha de cinema e tecelã. Debilitada e doente, é socorrida por Oswald. Escreve o romance proletário Parque Industrial e peça de teatro nele baseada.
1933 - Publica o romance Parque industrial, em janeiro. O livro, primeiro romance proletário brasileiro, tem edição financiada por Oswald e sai assinado por Mara Lobo, pseudônimo exigido pelo Partido Comunista. Em agosto, começa viagem pelo mundo, enviando reportagens para jornais como o Diário de Notícias e o Correio da Manhã cariocas e o Diário da Noite paulistano. O itinerário: Rio, Belém, Califórnia, Japão, China, Rússia, Polônia, Alemanha, França. Encontros: Sigmund Freud num navio; George Raft, Raul Roulien e Miriam Hopkins, em Hollywood; Raul Bopp, em Cobe, no Japão.
1934 - Fica amiga do último imperador, Pu-Yi, com quem anda de bicicleta pelos corredores do palácio da corte manchu. Consegue dele, na Mandchuria, as sementes de soja que iniciam a cultura do cereal no Brasil. Após visitar a Rússia, mesmo decepcionada com o regime comunista, trabalha em Paris no jornal L’Avant-Garde e como tradutora de filmes. Com o pseudônimo de Léonie, entra para o PC francês. É ferida em manifestações de rua e presa três vezes. Encontros: a vanguarda francesa – Louis Aragon, André Breton, Paul Éluard, René Crevel, em casa da amiga e cantora brasileira Elsie Huston, casada com o poeta Benjamin Péret.
1935 - A ponto de ser deportada para a Alemanha nazista, é salva pelo embaixador brasileiro Souza Dantas, que consegue recambiá-la para o Brasil. De volta, trabalha no jornal A Platéia, em São Paulo. Separa-se de Oswald de Andrade.
1936 - É presa por causa do levante comunista. Absolvida em São Paulo, é condenada a dois anos de prisão no Rio.
1937 - Antes de cumprir toda a pena, foge do hospital Santa Cruz. Aparece nos jornais como uma mulher perigosa e inimiga pública do governo de Getúlio Vargas.
1938 - Nova prisão. O Tribunal Nacional de Segurança do Estado Novo getulista a condena a mais dois anos de prisão.
1939 - Escreve, na prisão, Microcosmo – Pagu e o homem subterrâneo. Correspondência, textos poéticos complementares (os únicos preservados) de romance que enterrou em terreno baldio, antes de ser detida, em São Paulo. No local foi construído um edifício, antes que pudesse desenterrar o romance.
1940 - Começa a redigir, na cadeia, carta autobiográfica dirigida a Geraldo Ferraz, depois editada no livro Paixão Pagu. É libertada e se casa com Geraldo Ferraz.
1941 - Nasce Geraldo Galvão Ferraz, filho do casal, a 18 de junho.
1942 - Em São Paulo, publica crônicas em A Noite, sob o pseudônimo Ariel.
1943 - Trabalha nos jornais cariocas A Manhã e O Jornal.
1944 - De junho a dezembro, escreve contos policiais para a revista Detective.
1945 - Publica o romance A Famosa Revista, escrito com Geraldo Ferraz. No Rio e em São Paulo, trabalha na agência de notícias France-Presse, onde fica 11 anos. Participa da redação do jornal A Vanguarda Socialista, fundado por Mário Pedrosa e secretariado por Geraldo Ferraz. Ali também publica crônicas políticas e literárias.
1946 - Faz com Geraldo Ferraz o Suplemento Literário do jornal Diário de São Paulo.
Escreve crônicas da vida cultural na coluna Cor Local e produz a Antologia da Literatura Estrangeira, onde traduz pela primeira vez no Brasil grandes nomes da poesia e da prosa mundial.
1948 - Importante participação no Congresso de Poesia, em São Paulo.
1949 - Tentativa de suicídio. Colabora no Jornal de São Paulo.
1950 - É candidata a deputada estadual em São Paulo, pelo Partido Socialista Brasileiro. Publica o panfleto Verdade e Liberdade. Trabalha no jornal Fanfulla.
1952 - Frequenta a Escola de Arte Dramática.
1954 - Escreve a peça Fuga e Variações, parte do exercício escolar. Traduz A Cantora Careca, de Ionesco. Morando em São Vicente e Santos, trabalha no jornal A Tribuna.
1956 - Começa uma das primeiras colunas de tevê no país com o pseudônimo Gim, em A Tribuna.
1958 - Dirige, com Paulo Lara, Fando e Lis, de Fernando Arrabal. Coordena o I Festival de Teatro Amador de Santos e Litoral. Incentivando o teatro de vanguarda.
1960 - Encontros com Jean-Paul Sartre e Eugéne Ionesco, em São Paulo e Rio. Traduz e dirige A Filha de Rappaccini, de Octavio Paz, em Santos.
1961 - Traduz a peça O Túnel, de Par Lagerkvist.
1962 - Em setembro, publica seu último texto, em A Tribuna, o poema Nothing. Vai a Paris para uma operação. Tentativa de suicídio, após o fracasso da intervenção. Morre em Santos, a 12 de dezembro.


3 Revelações:
Não Niara, disse tudo! E muito bem dito...
Como diz a Niara, cansa só de ler a vida de Pagu, imagine vivendo!
Gosto que lembremos (estou me incluindo nessa) de mulheres brasileiras que fizeram e aconteceram e hoje são tão pouco valorizadas.
bjs
Jussara
Nossa que vida intensa ... Em muitos textos que leio aqui, me pergunto: Como mulheres brasileiras tão geniais são tão desconhecidas do grande público? Será pq elas contrariam o padrão almejado pela sociedade conservadora?
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