Uma mulher para respeitar e admirar, by Allan Robert

sábado, 19 de março de 2011

Entre as muitas alegrias que este projeto/ este mês me ofereceram, destaca-se receber Allan e suas palavras neste espaço. Eu o admiro, admiro seu blog divertido, informativo e acolhedor. Admiro sua disponibilidade e sua gentileza. É sempre um prazer receber seus comentários no Borboletas, é sempre um prazer visitar sua Carta da Itália. E, hoje, é um prazer conhecer Marilene, única, singular e, ao mesmo tempo, símbolo de tantas.


Uma mulher para respeitar e admirar, by Allan Robert

A Borboleta quer saber uma mulher que respeito e admiro. Fácil: basta ser mulher. Como não gosto de homens, não precisa muito para me agradar. Gosto tanto de mulher que casei com uma e fiz outras duas. Brincadeiras à parte, é difícil e injusto eleger apenas uma como representante do maravilhoso universo feminino. Se fosse escrever sobre as mulheres da minha vida (esposa, filhas, mãe…) acabaria sendo piegas demais. Escrever sobre uma mulher famosa? O que mais eu teria a acrescentar? Tarefa árdua, Borboleta.

Longe de discussões científicas, políticas ou artísticas, escolhi falar de uma perfeita desconhecida. Uma mulher do povo, anônima mas real, como as pessoas simples que conheci nesta vida, a Marilene.

Fui passar o Carnaval em Salvador com meu irmão Dawidson, hospedados na casa da tia que morava. Era o ano de 1986 e o que deveria ser um período de férias de um mês acabou sendo esticado por doze anos. Foi no período pré Carnaval de 86 que conheci a Marilene. Era uma tarde de sábado e nós esperávamos que minha tiapouco mais velha que nós – terminasse de se preparar para sairmos para a farra, que em Salvador não tem hora nem dia para começar. A campainha toca e a Marilene entra com o seu sorriso, beijinhos e um astral digno da cidade, para fazer as unhas da “titia”.

Mulata bem-falante e inteligente, nos contava que fazia as unhas de muitos moradores do prédio, o que era uma mão na roda, pois conseguia fazer muitas unhas no sábado. “ aos sábados?”, perguntou meu irmão. Ela esclareceu que trabalhava em uma empresa de serviços públicos e que trabalhava como manicure aos sábados, domingos e no horário do almoço durante a semana. No empregooficialela servia café, fazia a limpeza, tirava fotocópias e outros serviços.

Ela ia fazendo a unha da minha tia e o papo rolava sem pretensões e com muita risada, que o clima era de festa. Contou-nos que morava em um bairro muito pobre. Filha caçula e mãe solteira de duas meninas, era ela quem sustentava a casa de dois cômodos que dividia com os irmãos mais velhos que não trabalhavam, a mãe e as duas meninas. Não sei quantos irmãos: não quis perguntar, fiquei revoltado com a situação e comentei que ela deveria se sentir muito cansada por trabalhar sempre e tanto. Ela respondeu que como manicure se divertia, que tinha um monte de amigas e que se não fosse assim não poderia pagar a faculdade que cursava à noite. [Correu um frio na sua espinha? Na minha, sim.]

Mulher, negra, mãe solteira, morando sabe-se onde, tendo que sustentar mãe, filhas e irmãos, trabalhando como um camelo, estudando, se esforçando para melhorar de vida e exibindo um sorriso de fazer inveja. Senti vergonha de ser homem, reclamar da vida e não me empenhar o suficiente. A Marilene não se tornou o símbolo dos meus fracassos, mas o exemplo da obstinação de quem quer tudo dessa vida e luta para tê-lo; de quem não abre mão de aproveitar o que a vida oferece e das mulheres batalhadoras. Nas mulheres da minha vida eu penso todos os dias, mas é na Marilene que penso a cada 8 de Março.

A última notícia que tive da Marilene através da minha tia (que mudou-se para Macaé) é que ela se formou na mesma área em que atua a empresa na qual ela ainda trabalha. Um dia ela servia café e no dia seguinte havia um escritório todo seu e, como manda o costume local, deixou de ser a Marilene para ser a Doutora Marilene. Foi morar em um apartamento novo com a mãe e as filhas e estava namorando um engenheiro da empresa. Engenheiro como ela. Marilene, anônima mas real.

6 Revelações:

Allan Robert P. J. disse...

É um prazer poder compartilhar essa História neste blog tão especial, num mês também especial.

Foi comovente conhecer e acompanhar o sucesso da Marilene, a quem desejo sempre novas conquistas e muita felicidade, ainda que distante. :)

S. disse...

que história linda!!! beijinhos

Palavras Vagabundas disse...

Mulheres e mulheres...parabéns Allan por lembrar de uma anônima que faz a diferença no mundo.
bjs
Jussara

Jussara Gehrke disse...

que história linda e que belo texto do Allan, gosto de como ele escreve, o acompanho faz tempo, e aproveitei para conhecer seu blog, gostei de tudo!!

beijo
Ju

Inaie disse...

Allan, seus textos, comos empre maravilhosos! Nao escreveu sobre a esposa, e ainda deu um jeito de dar uma bajulada nela para nao dormir no sofa...

que delicia conhecer a Marilene.

Georgia disse...

Uau!

Também tive uma Marilene na minha vida, na verdade se chama Beata.

8 de marco é meu dia, agora fica aqui registrado prá vc tb se lembrar de mim, rs.

Abracos

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